quarta-feira, 11 de julho de 2012

RAINHA


Há algumas batalhas em que a vitória está em perder. Perder nem sempre é perder quando o inimigo tanto quer o que faz o barco afundar. É chegada a hora que o inimigo guerreia sozinho e no seu furor, nem percebe que você há muito já descansou a espada. Enquanto se inebria com a ilusória mágica do momento, entre risos e gargalhadas, não enxerga a hiena por detrás da imagem de pavão ou se acha uma hiena mais maliciosa.

Enquanto você invade minha casa e saqueia o que acha que são minhas riquezas leva consigo tudo que já não me cabe, tudo que já não me serve. E nesse momento, meu caro, se fez um grande amigo, pois tomou para si toda a peste que poderia assolar as plantações do meu povo.

Vai chegar o momento que estando de posse do seu prêmio, podendo desfrutá-lo verdadeiramente, talvez pense que resolvi perder este confronto de propósito, ou quem sabe que tenha fingido estar em confronto só para te dar a ilusão de vencedor para que você tanto desejasse este troféu. Talvez não me conheça o bastante para entender que não é do meu feitio distribuir ou delegar responsabilidades que entendo como minhas, mas recorde-se bem que nada disto eu desejei para ti e que foi você quem desejou intensamente ter o que não podia carregar. O que se pôde ver da sua janela não é suficiente para saber ser um rei ou uma rainha. Este não é um ofício fácil e nem é para todos. Lembre-se de que não iniciei esta batalha e que fantasiou sobre o que eu tinha e o que eu era.

Os louros desta sua vitória são exclusivamente seus. Desfrute sem parcimônia e em nenhum momento retorne o que conquistou por direito. Neste reino não há lugar para suas batalhas. Não sou uma tirana, mas a justiça me acompanha e é pilar da minha estirpe. Espero que tenha apreciado a minha carruagem e guarde essa sensação porque será dura a sensação de contar unicamente com seus pés. E como forma de agradecimento à faxina que fez em meu palácio eu te previno: aprenda a nadar, pois o Mar é dos peixes.

Minha vitória não vai chegar porque eu nunca perdi.

DI-A-RIO
Educaram-me tão bem para os limites previsíveis e ponderáveis do pensar duas vezes antes de tudo.

Educaram-me tão mal para a leveza essencial à felicidade dos irresponsáveis.

Sinto como se pudesse voar a qualquer momento assim que aprender a desamarrar os nós das cordas que amarraram às minhas pernas

Porque todos acham que me conhecem? porque todos acham que sabem como penso, como ajo, o que planejo, o que quero da vida?

Simplesmente vou vivendo as circunstâncias que tenho podido. Mas em que se baseiam para pressupor-me transparente?

Quem disse que algum dia na vida algum de vocês conseguiu me enxergar?

Vocês não sabem quem sou eu. Vocês sabem apenas o que podem ver.

Vocês conhecem bem as regras que me encaixotam, as quais me disciplinaram a vida toda.